segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Papa em Guidonia: testemunhar Jesus, sem fofocar

“Testemunhar Jesus” com exemplos de vida cristã, ações concretas e sem “fofocas”. Foi o que disse o Papa Francisco na homilia da missa celebrada, na tarde deste domingo (15/01), na Paróquia de Santa Maria em Setteville, em Guidonia, Diocese de Roma. 
O pontífice retomou suas visitas às paróquias romanas depois de uma pausa do ano jubilar. Recomeçou o ciclo de visitas encontrando na Paróquia de Santa Maria em Setteville o vice-pároco Pe. Giuseppe Berardino, 47 anos, que sofre gravemente de Esclerose Lateral Amiotrófica há mais de dois anos, e não se movimenta autonomamente. 
Francisco se encontrou com os jovens que começaram cinco anos atrás seu percurso de formação para a Crisma com Pe. Giuseppe. Acompanhado pelo Pároco Pe. Luigi Tedoldi, o Papa solicitou os jovens a falar, a fazerem perguntas, a testemunhar com a sua presença na paróquia que é “uma graça do Senhor” aos jovens que abandonam a Igreja depois da Crisma.
Testemunho
Com as crianças, o Pontífice se deteve sobre o significado do testemunho como “exemplo de vida”: 
“Posso falar do Senhor, mas se eu com a minha vida não falo dando testemunho, não serve! Padre, eu sou cristão, e falo do Senhor. Sim, mas você é um cristão papagaio: palavras, palavras e palavras, e nada mais. O testemunho cristão se faz com a palavra, com o coração e com as mãos.”
O Papa exortou a ouvir, ir ao encontro, pedir perdão e perdoar, realizar obras de misericórdia com os doentes, encarcerados e pobres. E ter fé, vivendo-a e demonstrando com os fatos o quando seja importante: 
“Se você tem um amigo, uma amiga que não crê, não deve dizer-lhe: “Você tem de crer por isso e aquilo, e explicar todas as coisas. Isso não deve ser feito! Isso se chama proselitismo e nós cristãos não fazemos proselitismo. O que se deve fazer? Se não posso explicar, o que devo fazer? Viver de tal forma que seja ele ou ela a lhe perguntar: Por que você vive assim? Por que você fez isso? Aí sim, você explica.”
Fé
Francisco convidou a falar e a ter como exemplo os avós que “protegem a família”: “são a nossa memória, a nossa sabedoria, são também amigos”, sublinhou. 
No encontro com os agentes pastorais, recordou o período em que em Buenos Aires fazia algumas catequeses “com um filme”, convidando a assistir o filme japonês de Kurosawa intitulado “Rapsódia em Agosto”, para explicar o diálogo entre avós e netos.
O Papa falou das vezes em que caminhou na “escuridão” da fé: “Existem dias em que não se vê nada, mas depois com a ajuda do Senhor a gente se reencontra.” Por exemplo, diante de uma calamidade: Francisco se referiu às 13 crianças nascidas depois do terremoto que abalou recentemente a região central da Itália, batizadas, no último sábado (14/01), na Casa Santa Marta. Um homem disse ao Papa que perdeu sua esposa no terremoto. 
“Respeita a escuridão da alma. Depois, o Senhor despertará a fé. A fé é um dom do Senhor. Cabe a nós somente protegê-la. Não se estuda para ter fé: a fé se recebe como um presente.”
No encontro com os doentes, Francisco refletiu sobre o sofrimento também das “crianças com problemas”: 
“Existem coisas que não têm como explicar, acontecem. A vida é assim. Jesus quis estar próximo a nós com a sua dor, com a sua paixão, com seu sofrimento. Jesus está com todos vocês.”
Com os pais de 45 crianças batizadas na paróquia durante 2016, o Papa se deteve na “alegria da vida que segue adiante”, típica das crianças. A seguir, confessou quatro pessoas, e na homilia da missa, voltou a convidar a testemunhar Cristo: “Existem muitos cristãos que professam que Jesus é Deus; existem vários sacerdotes que confessam que Jesus é Deus, muitos bispos, mas todos testemunham Jesus? Ser cristão é uma maneira de viver? É como ser torcedor de um time? Ser cristão é primeiramente testemunhar Jesus.”
Paz
Uma paróquia é incapaz de testemunhar se nela existem fofocas. O Papa deu como exemplo os Apóstolos, que não obstante tenham traído Jesus, nunca “falavam mal” uns dos outros. 
“Vocês querem uma paróquia perfeita? Não fofoquem. Se você tem alguma coisa contra uma pessoa, fale diretamente com ela ou converse com o pároco, mas não entre vocês. Este é o sinal de que o Espírito Santo está numa paróquia. Os outros pecados, todos temos. Existe um coleção de pecados: eu pego esse, você pega aquele, mas todos somos pecadores. Porém, o que realmente destrói uma comunidade, como o verme, são as fofocas.”
Antes de deixar Guidonia, Francisco saudou os fiéis que esperaram por ele do lado de fora da igreja. E deixou uma tarefa: Que este seja um “bairro de paz”.

(MJ)

Papa: "Igreja não anuncia si mesma, mas Jesus"

Em seu encontro com os fiéis na Praça São Pedro, neste domingo (15/01), o Papa explicou o sentido das palavras do Evangelho do dia proferidas por João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, às margens do Rio Jordão.
Enquanto João batiza as pessoas, homens e mulheres de várias idades, ele afirma que o reino dos céus está próximo e que o Messias está para se manifestar. “Para isso, é preciso se preparar, se converter e se comportar corretamente”. O batismo é um sinal concreto de penitência. João sabe que o Consagrado está chegando e o sinal para reconhecê-lo é que Nele se pousará o Espírito Santo, que trará o verdadeiro batismo.
“Eis que naquele momento Jesus se apresenta às margens do rio, no meio do povo, dos pecadores, como nós. É o seu primeiro ato público, a primeira coisa que faz quando deixa sua casa de Nazaré: desce à Judeia, vai ao Jordão e se faz batizar por João Batista. Naquele momento, sobre Jesus desce o Espírito Santo em forma de pomba e a voz do Pai o proclama Filho predileto”.
João entende que se realiza o plano divino
João fica desconcertado pelo fato de o Messias se ter manifestado de modo tão impensável, em meio aos pecadores. O Papa explicou que iluminado pelo Espírito, João entende que assim se realizava a justiça divina, o plano de salvação de Deus, que “como Cordeiro de Deus, toma para si os pecados do mundo”.
Esta cena, segundo o Pontífice, é decisiva para a nossa fé e para a missão da Igreja, que deve indicar Jesus às pessoas, como fazem os padres na missa, todos os dias, quando apresentam o pão e o vinho aos fiéis como o Corpo e o Sangue de Cristo:
Igreja deve anunciar sempre Jesus e não si mesma
“Este gesto litúrgico representa toda a missão da Igreja, que não anuncia si mesma, mas anuncia Cristo! Ai da Igreja quando anuncia si mesma... perde a bússola, não sabe para onde ir. Ela não leva si mesma, mas leva Cristo, porque é Ele e somente Ele que salva o povo do pecado, o liberta e o guia rumo à terra da vida e da liberdade”.
Concluindo, o Papa rezou a oração mariana do Angelus e pediu a Maria, Mãe do Cordeiro de Deus, que nos ajude a crer Nele e a Segui-Lo. 

Papa pede 'proteção, defesa e integração' de crianças migrantes

Diante das milhares de pessoas presentes na manhã deste domingo (15/01) na Praça São Pedro, o Papa pediu a adoção de “todas as medidas possíveis para garantir proteção, defesa e integração para as crianças migrantes”.
No Dia Mundial do Migrante e do Refugado, dedicado este ano ao tema “Migrantes de menor idade, vulneráveis e sem voz”, o Pontífice denunciou os perigos aos quais “estes pequenos irmãos, especialmente quando desacompanhados, estão expostos.
O encontro de culturas e o respeito das leis
“Saúdo especialmente os representantes de comunidades étnicas aqui presentes. Queridos amigos, desejo que possam viver com serenidade nas localidades que os acolhem, respeitando suas leis e tradições e, ao mesmo tempo, mantendo os valores de suas culturas originais. O encontro entre culturas diferentes é sempre um enriquecimento para todos!”.
Francisco fez um agradecimento público ao Setor ‘Migrantes’ da Diocese de Roma e a todos os que trabalham com os migrantes acolhendo-os e acompanhando-os em suas dificuldades.
Encorajando-os a prosseguirem esta obra, o Papa mencionou Santa Francisca Xavier Cabrini, morta 100 anos atrás, padroeira dos migrantes:
“Esta religiosa, corajosa, dedicou sua vida e levar o amor de Cristo àqueles que estavam distantes de suas pátrias e famílias. Que seu testemunho nos ajude a cuidar do irmão estrangeiro, no qual Jesus está presente, e que muitas vezes sofre, é humilhado e repelido. Quantas vezes na Bíblia o Senhor nos pede para acolher os migrantes e os estrangeiros, recordando-nos que nós também somos estrangeiros".

sábado, 14 de janeiro de 2017

Papa Francisco: Discurso ao Corpo Diplomático - Texto integral

Excelências, queridos Embaixadores, Senhoras e Senhores!
Dou-vos as boas vindas e agradeço a vossa presença tão numerosa e atenta neste encontro tradicional que nos permite trocar entre nós votos de que o ano, há pouco iniciado, seja um tempo de alegria, prosperidade e paz para todos. Expresso-os ao Decano do Corpo Diplomático, Sua Excelência o Senhor Armindo Fernandes do Espírito Santo Vieira, Embaixador de Angola, com um sentimento de especial gratidão pelas deferentes palavras de saudação que me dirigiu em nome de todo o Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, que recentemente se viu ampliado na sequência do estabelecimento de relações diplomáticas com a República Islâmica da Mauritânia, ocorrido há um mês. Desejo igualmente exprimir a minha gratidão aos numerosos Embaixadores residentes na Urbe, tendo o seu número aumentado durante o último ano, e também aos Embaixadores não residentes, que hoje, com a sua presença, pretendem sublinhar os vínculos de amizade que unem os seus povos à Santa Sé. Ao mesmo tempo, gostaria de deixar uma palavra de condolências ao Embaixador da Malásia, recordando o seu antecessor, Dato’ Mohd Zulkephli Bin Mohd Noor, falecido em fevereiro passado.
Ao longo do ano passado, as relações entre os vossos países e a Santa Sé puderam aprofundar-se ainda mais com as gratas visitas de numerosos chefes de Estado e de governo, muitas delas em concomitância com os vários eventos que constelaram o Jubileu extraordinário da Misericórdia, recentemente concluído. Vários foram também os Acordos bilaterais assinados ou ratificados, quer de carácter geral, visando reconhecer o estatuto jurídico da Igreja, com a República Democrática do Congo, República da África Central, Benim e com Timor-Leste, quer de caráter mais específico como o Avenant assinado com a França, ou a Convenção em matéria fiscal com a República Italiana, que entrou recentemente em vigor, e ainda o Memorando de Acordo entre a Secretaria de Estado e o Governo dos Emiratos Árabes Unidos. Além disso, na perspetiva do empenho da Santa Sé por respeitar as obrigações assumidas pelos acordos subscritos, foi também dada plena implementação ao Comprehensive Agreement com o Estado da Palestina, que entrou em vigor há um ano.
Queridos Embaixadores!
Há um século, encontrava-se o mundo no auge do primeiro conflito mundial; um massacre inútil,[1] no qual novas técnicas de combate semeavam morte e causavam sofrimentos enormes à população civil indefesa. Em 1917, o conflito mudou profundamente de aspeto, adquirindo uma fisionomia cada vez mais global, ao mesmo tempo que assomavam ao horizonte aqueles regimes totalitários que haveriam de ser, durante longo tempo, causa de dilacerantes divisões. Cem anos depois, pode-se dizer que muitas partes do mundo beneficiaram de longos períodos de paz, que propiciaram oportunidades de desenvolvimento económico e formas de bem-estar sem precedentes. Se, para muitos, a paz aparece hoje de certo modo como um bem indiscutido, quase um direito adquirido a que já não se presta grande atenção, entretanto para outros é apenas uma miragem distante. Milhões de pessoas vivem ainda no meio de conflitos insensatos. Mesmo em lugares outrora considerados seguros, nota-se uma sensação geral de medo. Com frequência somos surpreendidos por imagens de morte, pela dor de inocentes que imploram ajuda e consolação, pelo luto de quem chora uma pessoa querida por causa do ódio e da violência, surpreendidos pelo drama dos deslocados que fogem da guerra ou dos migrantes que morrem tragicamente.
Por isso, gostaria de dedicar o encontro de hoje ao tema da segurança e da paz, pois considero que, no clima de geral apreensão pelo presente e de incerteza e angústia pelo futuro em que estamos mergulhados, é importante dirigir uma palavra de esperança, que indique também perspetivas de caminho.
Apenas alguns dias atrás, celebramos o quinquagésimo Dia Mundial da Paz, instituído pelo meu Predecessor, o Beato Paulo VI, «como auspiciosa promessa – na abertura do calendário que mede e descreve o caminho da vida humana no tempo – de que seja a paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o desenrolar da história futura».[2] Para os cristãos, a paz é um dom do Senhor, aclamada e cantada pelos anjos no momento do nascimento de Cristo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14). A paz é um bem positivo, «fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana»[3] e «não [a mera] ausência de guerra».[4] Não «se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas»[5], mas exige o compromisso das pessoas de boa vontade «sempre anelantes por uma mais perfeita justiça».[6]
Nesta perspetiva, é minha viva convicção que cada expressão religiosa é chamada a promover a paz. Pude experimentá-lo, de maneira significativa, durante a Jornada Mundial de Oração pela Paz, realizada em Assis no passado mês de setembro, durante a qual se encontraram os representantes das diferentes religiões para «dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta»,[7] bem como no decurso da minha visita ao Templo Maior de Roma ou à Mesquita de Baku.
Sabemos que não têm faltado violências por motivação religiosa, a começar precisamente pela Europa, onde históricas divisões entre os cristãos já perduram há demasiado tempo. Na minha viagem recente à Suécia, pretendi lembrar a necessidade urgente de curar as feridas do passado e caminhar juntos para objetivos comuns. Na base deste caminho, não pode haver senão o diálogo autêntico entre as diferentes confissões religiosas. É um diálogo possível e necessário, como procurei testemunhar no encontro realizado em Cuba com o Patriarca Cirilo de Moscovo, bem como no decurso das viagens apostólicas à Arménia, Geórgia e Azerbaijão, onde notei a justa aspiração daquelas populações por resolver os conflitos que, há anos, prejudicam a concórdia e a paz.
Ao mesmo tempo, convém não esquecer as múltiplas obras, religiosamente inspiradas, que concorrem – por vezes mesmo com o sacrifício dos mártires – para a edificação do bem comum, através da educação e da assistência sanitária, especialmente nas regiões mais desfavorecidas e nos cenários de conflito. Tais obras contribuem para a paz e dão testemunho de como se pode, concretamente, viver e trabalhar juntos, mesmo pertencendo a povos, culturas e tradições diferentes, desde que se coloque, no centro das próprias atividades, a dignidade da pessoa humana.
Estamos cientes, porém, de que ainda hoje, infelizmente, a experiência religiosa, em vez de abrir aos outros, pode às vezes ser usada como pretexto de fechamentos, marginalizações e violências. Refiro-me particularmente ao terrorismo de matriz fundamentalista, que ceifou também no ano passado numerosas vítimas em todo o mundo: no Afeganistão, Bangladesh, Bélgica, Burkina Faso, Egito, França, Alemanha, Jordânia, Iraque, Nigéria, Paquistão, Estados Unidos da América, Tunísia e Turquia. São gestos vis, que usam as crianças para matar, como na Nigéria; tomam de mira quem reza, como na catedral copta do Cairo, quem viaja ou trabalha como em Bruxelas, quem passeia pelas ruas da cidade, como em Nice e Berlim, ou simplesmente quem festeja a chegada do Ano Novo, como em Istambul.
Trata-se duma loucura homicida que, na tentativa de afirmar uma vontade de predomínio e poder, abusa do nome de Deus para semear morte. Por isso, faço apelo a todas as autoridades religiosas para que se mantenham unidas em reiterar vigorosamente que nunca se pode matar em nome de Deus. O terrorismo fundamentalista é fruto duma grave miséria espiritual, que muitas vezes aparece associada também com notável pobreza social. E isto poderá ser plenamente vencido apenas com a colaboração conjunta dos líderes religiosos e dos líderes políticos. Aos primeiros, cabe a tarefa de transmitir aqueles valores religiosos que não admitem contraposição entre o temor de Deus e o amor ao próximo. Aos líderes políticos, compete garantir, no espaço público, o direito à liberdade religiosa, reconhecendo a contribuição positiva e construtiva que a mesma exerce na edificação da sociedade civil, onde não podem ser sentidas como contraditórias a pertença social, sancionada pelo princípio de cidadania, e a dimensão espiritual da vida. Além disso compete a quem governa a responsabilidade de evitar a formação daquelas condições que se tornam terreno fértil para a propagação dos fundamentalismos. Isto requer adequadas políticas sociais tendentes a combater a pobreza, que não podem prescindir duma sincera valorização da família, como lugar privilegiado da maturação humana, e de investimentos conspícuos nos setores educativo e cultural.
A este respeito, vejo com interesse a iniciativa do Conselho da Europa sobre a dimensão religiosa do diálogo intercultural, que no ano passado se debruçou sobre o papel da educação na prevenção da radicalização que conduz ao terrorismo e ao extremismo violento. Trata-se duma oportunidade para aprofundar a contribuição do fenómeno religioso e o papel da educação para uma verdadeira pacificação do tecido social, necessária para a convivência numa sociedade multicultural.
Neste sentido, desejo expressar a convicção de que cada autoridade política não se deve limitar a garantir a segurança dos seus cidadãos – conceito que facilmente se pode identificar com um simples «viver tranquilos» – mas sinta-se chamada também a fazer-se verdadeira promotora e obreira de paz. A paz é uma «virtude ativa», que requer o empenho e a cooperação de cada indivíduo e do corpo social no seu todo. Como observava o Concílio Vaticano II, «a paz nunca se alcança duma vez por sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada»,[8] tutelando o bem das pessoas, respeitando a sua dignidade. A sua edificação requer, antes de mais nada, que se renuncie à violência na reivindicação dos próprios direitos.[9] Foi precisamente a este princípio que quis dedicar a Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017, intitulada: «A não-violência: o estilo duma política para a paz», para lembrar, antes de mais nada, que a não-violência é um estilo político, baseado na primazia do direito e da dignidade de toda a pessoa.
Edificar a paz exige também «eliminar as causas das discórdias entre os homens, que são as que alimentam as guerras»,[10] a começar pelas injustiças. Com efeito, existe uma ligação íntima entre justiça e paz.[11] «Mas – observava São João Paulo II – como a justiça humana é sempre frágil e imperfeita, porque exposta como tal às limitações e aos egoísmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perdão que cura as feridas e restabelece em profundidade as relações humanas transtornadas. (...) O perdão não se opõe de modo algum à justiça, (…) mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça, que gera a tranquilidade da ordem, a qual (...) consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambos, justiça e perdão, são essenciais».[12] Estas palavras, mais atuais hoje do que nunca, contaram com a disponibilidade de alguns chefes de Estado ou de governo para acolher o meu convite a realizar um ato de clemência para com os reclusos. A eles, bem como a todas as pessoas que trabalham para criar condições de vida dignas para os encarcerados e favorecer a sua inserção na sociedade, desejo expressar o meu particular apreço e gratidão.
Estou convencido que o Jubileu extraordinário da Misericórdia constituiu, para muitos, uma ocasião particularmente favorável para descobrirem também «a grande e positiva incidência da misericórdia como valor social».[13] Deste modo, cada um pode contribuir para dar vida a «uma cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos».[14] Só assim será possível construir sociedades abertas e acolhedoras para com os estrangeiros e, ao mesmo tempo, seguras e em paz no seu interior. Isto é ainda mais necessário nos dias de hoje em que continuam, ininterruptos, enormes fluxos migratórios em diferentes partes do mundo. Penso de modo particular nos numerosos deslocados e refugiados nalgumas áreas da África, no sudeste asiático e em todos aqueles que fogem das zonas de conflito no Médio Oriente.
No ano passado, a comunidade internacional enfrentou o problema em dois encontros importantes, convocados pelas Nações Unidas: a primeira Cimeira Mundial da Ajuda Humanitária e a Cimeira sobre os Amplos Movimentos de Refugiados e Migrantes. É preciso um empenho comum em favor de migrantes, deslocados e refugiados, que permita proporcionar-lhes um acolhimento digno. Isto implica saber conjugar o direito de cada ser humano a «transferir-se para outras comunidades políticas e nelas domiciliar-se»[15] e, ao mesmo tempo, garantir a possibilidade duma integração dos migrantes nos tecidos sociais onde se inserem, sem que estes sintam ameaçada a sua segurança, a própria identidade cultural e os seus próprios equilíbrios político-sociais. Por outro lado, os próprios migrantes não devem esquecer que têm o dever de respeitar as leis, a cultura e as tradições dos países onde são acolhidos.
Uma abordagem prudente por parte das autoridades públicas não envolve a implementação de políticas de fechamento aos migrantes, mas implica avaliar, com sabedoria e clarividência, até que ponto o seu país é capaz, sem lesar o bem comum dos cidadãos, de oferecer uma vida decente aos migrantes, especialmente àqueles que têm real necessidade de proteção. Sobretudo não se pode reduzir a dramática crise atual a uma simples contagem numérica. Os migrantes são pessoas com nomes, histórias, famílias, e não poderá jamais haver verdadeira paz enquanto existir um único ser humano que é violado na sua identidade pessoal e reduzido a mero número estatístico ou a um objeto de interesse económico.
O problema migratório é uma questão que não pode deixar indiferentes alguns países, enquanto outros suportam o peso humanitário, muitas vezes com esforços consideráveis e sérias dificuldades, para enfrentar uma emergência que parece não ter fim. Todos deveriam sentir-se construtores concorrendo para o bem comum internacional, inclusive através de gestos concretos de humanidade que constituem fatores essenciais daquela paz e daquele progresso que nações inteiras e milhões de pessoas estão ainda à espera. Por isso, agradeço a tantos países que acolhem generosamente aqueles que precisam, a começar por vários Estados europeus, especialmente Itália, Alemanha, Grécia e Suécia.
Permanecerá gravada para sempre na minha memória a viagem que fiz à Ilha de Lesbos, juntamente com os meus irmãos Patriarca Bartolomeu e Arcebispo Ieronymos, onde vi e constatei a situação dramática dos campos de refugiados, mas também a humanidade e o espírito de serviço de muitas pessoas empenhadas na sua assistência. E não devemos esquecer também a hospitalidade oferecida por outros países europeus e do Médio Oriente, como Líbano, Jordânia, Turquia, e ainda o empenho de diferentes países da África e da Ásia. Também durante a minha viagem ao México, onde pude experimentar a alegria do povo mexicano, senti-me solidário com os milhares de migrantes da América Central, que suportam terríveis injustiças e perigos na tentativa de poder ter um futuro melhor, vítimas de extorsão e objeto daquele comércio perverso – horrível forma de escravatura moderna – que é o tráfico das pessoas.
Inimiga da paz é uma tal «visão redutora» do homem, que abre o caminho à difusão da iniquidade, das desigualdades sociais, da corrupção. Precisamente contra este último fenómeno, a Santa Sé assumiu novos compromissos, depositando formalmente, em 19 de setembro passado, o instrumento de adesão à Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 31 de outubro de 2003.
Na Encíclica Populorum Progressio, cujo cinquentenário tem lugar este ano, o Beato Paulo VI lembrava que tais desigualdades provocam discórdias. «O caminho da paz passa pelo desenvolvimento»,[16] que as autoridades públicas têm a responsabilidade de encorajar e favorecer, criando as condições para uma distribuição mais equitativa dos recursos e estimulando as oportunidades de emprego, especialmente para os mais jovens. No mundo, há ainda demasiadas pessoas, especialmente crianças, que sofrem por pobrezas endémicas e vivem em condições de insegurança alimentar – antes, de fome –, enquanto os recursos naturais se veem objeto da exploração gananciosa de poucos e enormes quantidades de alimento são desperdiçadas todos os dias.
As crianças e os jovens são o futuro: para eles se trabalha e constrói. Não podem ser, egoisticamente, negligenciados e esquecidos. Por esta razão, como lembrei recentemente numa carta enviada a todos os Bispos, considero prioritária a defesa das crianças, cuja inocência é frequentemente espezinhada sob o peso da exploração, do trabalho clandestino e escravo, da prostituição ou dos abusos dos adultos, dos bandidos e dos mercadores de morte.[17]
Durante a minha viagem à Polónia, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, pude encontrar milhares de jovens, cheios de entusiasmo e alegria de viver. Mas, em muitos outros, tenho visto a tristeza e o sofrimento. Penso nos adolescentes que sofrem as consequências do conflito atroz na Síria, privados das alegrias da infância e da juventude: desde a possibilidade de brincar livremente até à oportunidade de ir à escola. Eles e todo o querido povo da Síria estão constantemente presentes no meu pensamento, ao mesmo tempo que apelo à comunidade internacional para que se esforce com diligência por dar vida a uma negociação séria que ponha termo definitivamente ao conflito, causador de um verdadeiro e próprio desastre humanitário. Cada uma das partes em causa deve considerar como prioritário o respeito pelo direito humanitário internacional, garantindo a proteção dos civis e a assistência humanitária necessária à população. O desejo comum é que a trégua recentemente assinada possa ser um sinal de esperança para todo o povo sírio, que dela tem profunda necessidade
Isto requer também que se trabalhe por erradicar o perverso comércio das armas e a insistência constante de se produzir e disseminar armamentos cada vez mais sofisticados. Notável preocupação despertam as experiências realizadas na península coreana, que desestabilizam a região inteira e põem questões preocupantes a toda a comunidade internacional sobre o risco duma nova corrida às armas nucleares. Permanecem muito atuais ainda as palavras de São João XXIII, na Pacem in terris, quando afirma que «a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com esta corrida ao poderio militar; que o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente; que sejam banidas as armas atómicas».[18]
Também no que diz respeito aos armamentos convencionais, é preciso salientar que a facilidade com que, não raro, se pode aceder ao mercado das armas, mesmo de pequeno calibre, além de agravar a situação nas diferentes áreas de conflito, produz uma sensação generalizada de insegurança e medo, tanto mais perigosa por se atravessar tempos de incerteza social e mudanças epocais como o atual.
Inimiga da paz é a ideologia que se vale dos problemas sociais para fomentar o desprezo e o ódio e que vê o outro como um inimigo a aniquilar. Infelizmente assomam, de contínuo, no horizonte da humanidade novas formas ideológicas. Mascarando-se como portadoras de bem para o povo, o que realmente deixam atrás de si é pobreza, divisões, tensões sociais, sofrimento e, por vezes, também morte. Ao invés, a paz conquista-se com a solidariedade. A partir dela germina a vontade de diálogo e a colaboração, que encontra na diplomacia um instrumento fundamental. É na perspetiva da misericórdia e da solidariedade que se coloca o empenho convicto da Santa Sé e da Igreja Católica por afastar os conflitos ou acompanhar processos de paz, reconciliação e busca de soluções negociadas para os mesmos. Anima ver que algumas tentativas empreendidas encontram a boa vontade de muitas pessoas que, de variadas partes, trabalham ativa e eficazmente pela paz. Penso nos esforços feitos no último biénio para reaproximar Cuba e os Estados Unidos. Penso também no esforço empreendido com tenacidade, mesmo por entre dificuldades, para acabar com anos de conflito na Colômbia.
Tal abordagem visa favorecer a confiança mútua, sustentar caminhos de diálogo e sublinhar a necessidade de gestos corajosos, que são muito urgentes também na vizinha Venezuela, onde as consequências da crise política, social e económica gravam há muito sobre a população civil; ou noutras partes da Terra, a começar pelo Médio Oriente, não só para pôr fim ao conflito sírio, mas também para favorecer sociedades plenamente reconciliadas no Iraque e no Iémen. Além disso a Santa Sé renova o seu premente apelo para que se retome o diálogo entre israelitas e palestinenses, a fim de se chegar a uma solução estável e duradoura que garanta a coexistência pacífica de dois Estados dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Nenhum conflito pode tornar-se um hábito, do qual pareça quase impossível separar-se. Israelitas e palestinenses têm necessidade de paz. Todo o Médio Oriente tem urgente necessidade de paz!
Igualmente espero a plena implementação dos acordos que visam restabelecer a paz na Líbia, onde é muito urgente curar as divisões destes anos. Do mesmo modo encorajo todos os esforços a nível local e internacional para restaurar a convivência civil no Sudão e no Sudão do Sul, na República da África Central, martirizados por persistentes confrontos armados, massacres e devastações, bem como noutras nações do Continente marcadas por tensões e instabilidade política e social. Em particular, faço votos de que o recente acordo assinado na República Democrática do Congo contribua para fazer com que todos aqueles que têm responsabilidades políticas se esforcem diligentemente por favorecer a reconciliação e o diálogo entre todas as componentes da sociedade civil. O meu pensamento detém-se ainda no Myanmar, esperando que se favoreça uma coexistência pacífica e, com a ajuda da comunidade internacional, não se deixe de prestar assistência a quantos têm grave e urgente necessidade dela.
Também na Europa, onde não faltam as tensões, a abertura ao diálogo é o único caminho para garantir a segurança e o progresso do Continente. Acolho, pois, com favor as iniciativas tendentes a favorecer o processo de reunificação de Chipre, que hoje mesmo vê um retoma das negociações, enquanto espero que, na Ucrânia, se continue com determinação na busca de soluções viáveis para a plena realização dos compromissos assumidos pelas Partes e sobretudo se dê rápida resposta à situação humanitária, que continua a ser ainda grave.
A Europa inteira está a atravessar um momento decisivo da sua história, em que é chamada a reencontrar a sua identidade. Isto exige a redescoberta das suas raízes, a fim de poder moldar o seu próprio futuro. Face aos impulsos desagregadores, é muito urgente atualizar «a ideia de Europa» para dar à luz um novo humanismo baseado na capacidade de integrar, dialogar e gerar,[19] que fez grande o chamado Velho Continente. O processo de unificação europeia, que começou depois do segundo conflito mundial, foi e continua a ser uma ocasião única de estabilidade, paz e solidariedade entre os povos. Nesta sede, não posso deixar de reiterar o interesse e a preocupação da Santa Sé pela Europa e o seu futuro, na certeza de que os valores, nos quais teve origem e está baseado este projeto – que chega este ano ao sexagésimo aniversário –, são comuns a todo o Continente e estendem-se para além das próprias fronteiras da União Europeia.
Excelências, Senhoras e Senhores!
Mas edificar a paz significa também empenhar-se ativamente no cuidado da criação. O Acordo de Paris sobre o clima, que entrou recentemente em vigor, é um sinal importante do compromisso comum para deixar a quem vier depois de nós um mundo belo e habitável. Espero que o esforço empreendido nos últimos anos para enfrentar as alterações climáticas encontre uma cooperação cada vez mais ampla de todos, já que a Terra é a nossa casa comum e é preciso considerar que as opções de cada um têm repercussões na vida de todos.
Contudo é evidente também que existem fenómenos que excedem as possibilidades da ação humana. Refiro-me aos numerosos terremotos que atingiram algumas regiões do mundo. Penso, antes de tudo, naqueles que ocorreram no Equador, Itália e Indonésia, que provocaram numerosas vítimas, e muitas pessoas vivem ainda em condições extremamente precárias. Pude visitar pessoalmente algumas áreas atingidas pelo terremoto no centro da Itália, onde, ao constatar as feridas que o sismo causou a uma terra rica de arte e cultura, pude compartilhar a amargura de tantas pessoas, juntamente com a sua coragem e determinação em reconstruir tudo o que foi destruído. Espero que a solidariedade que uniu o querido povo italiano nas horas sucessivas ao terremoto, continue a animar a nação inteira, sobretudo neste momento delicado da sua história. A Santa Sé e a Itália estão particularmente ligadas por óbvias razões históricas, culturais e geográficas. Esta ligação apareceu claramente no ano jubilar e agradeço a todas as autoridades italianas pela ajuda prestada na organização deste evento, inclusive para garantir a segurança dos peregrinos que vieram de todo o mundo.
Queridos Embaixadores!
A paz é um dom, um desafio e um compromisso. Um dom porque brota do próprio coração de Deus; um desafio porque é um bem que nunca é um dado adquirido mas deve ser continuamente conquistado; um compromisso, porque requer, na sua busca e construção, o trabalho apaixonado de todas as pessoas de boa vontade. Por isso só há verdadeira paz a partir duma visão do homem que saiba promover o seu desenvolvimento integral, tendo em conta a sua dignidade transcendente, já que «o desenvolvimento – como recordava o Beato Paulo VI – é o novo nome da paz».[20] Assim os meus votos para o ano há pouco iniciado são estes: que possam aumentar entre os nossos países e seus respetivos povos as ocasiões para trabalhar juntos e construir uma paz autêntica. Por seu lado a Santa Sé, particularmente a Secretaria de Estado, estará sempre disponível para colaborar com todos os que se esforçam por pôr termo aos conflitos em curso e para dar apoio e esperança às populações que sofrem.
Na liturgia, pronunciamos a saudação «a paz esteja convosco». Com esta frase, penhor de abundantes bênçãos divinas, renovo a cada um de vós, ilustres membros do Corpo Diplomático, às vossas famílias, aos países que aqui representais, os meus votos mais sinceros para este novo ano.
Obrigado!
(Vaticano, 9 de janeiro de 2017)


[1] Bento XV, Carta aos Chefes dos Povos Beligerantes, 1 de agosto de 1917: AAS IX (1917), 421.
[2] Paulo VI, Mensagem para a celebração do I Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 1968).
[3] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes (GS), 7 de dezembro de 1965, 78.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Francisco, Discurso na Jornada Mundial de Oração pela Paz, Assis, 20 de setembro de 2016.
[8] GS, 78.
[9] Cf. ibidem.
[10] Ibid., 83.
[11] Cf. Salmo 85/84, 11; Isaías 32, 17.
[12] João Paulo II, Mensagem para a Celebração do XXXV Dia Mundial da Paz («Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão»), 1 de janeiro de 2002, 3.
[13] Francisco, Carta apostólica Misericordia et misera, 20 de novembro de 2016, 18.
[14] Ibid., 20.
[15] João XXIII, Carta encíclica Pacem in terris, 11 de abril de 1963, 12.
[16] Paulo VI, Carta Encíclica Populorum progressio, 26 de março de 1967, 83.
[17] Cf. Carta aos Bispos na Festa dos Santos Inocentes, 28 de dezembro de 2016.
[18] João XXIII, Carta Encíclica Pacem in terris, 60.
[19] Cf. Francisco, Discurso por ocasião da atribuição do Prémio Carlos Magno, 6 de maio de 2016.
[20] Paulo VI, Populorum progressio, 87.

Papa convida cristãos a responder juntos aos desafios da humanidade

“Por todos os cristãos, para que, fiéis ao ensinamento do Senhor, se empenhem com a oração e a caridade fraterna no restabelecimento da plena comunhão eclesial, colaborando para responder aos desafios atuais da humanidade”, é a exortação do Papa Francisco contida na vídeo-mensagem com a intenção de oração do mês de janeiro.
“No mundo actual – afirma o Papa na vídeo-mensagem proposta pelo Apostolado da Oração – muitos cristãos de diversas Igrejas trabalham juntos ao serviço da humanidade necessitada, pela defesa da vida humana e da sua dignidade, da criação e contra as injustiças. Este desejo de caminhar juntos, de colaborar no serviço e na solidariedade em favor dos mais vulneráveis e daqueles que sofrem, é motivo de alegria para todos. Une a tua voz à minha para rezar para que todos contribuam com a oração e a caridade fraterna para restabelecer a plena comunhão eclesial ao serviço dos desafios da humanidade”.
No Angelus deste domingo (08/01), o Santo Padre fez um convite para todos “se unirem à Rede Mundial de Oração do Papa, que difunde, também pelas redes sociais, as intenções de oração que proponho a cada mês, a toda a Igreja. Assim se leva em frente o apostolado da oração e se faz crescer a comunhão”.
O Apostolado da Oração é a Rede Mundial de Oração do Papa ao serviço da missão da Igreja. O seu objectivo é rezar e viver os desafios da humanidade que preocupam o Santo Padre, expressas nas suas intenções mensais.
O objectivo desta rede é ser apóstolos na vida quotidiana, por meio de um caminho espiritual chamado “caminho do coração”, que transforma o nosso modo de ser ao serviço da missão de Cristo.
Foi fundado em 1844, está presente em mais de 100 países e é composto por mais de 35 milhões de pessoas, compreendendo o ramo dos jovens, o Movimento Eucarístico Juvenil. (BS/JE)

Papa Francisco: Carta aos Jovens - Texto integral

Caríssimos jovens!
            É-me grato anunciar-vos que em outubro de 2018 se celebrará o Sínodo dos Bispos sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional». Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração. Exatamente hoje é apresentado o Documento preparatório, que confio também a vós como «bússola» ao longo deste caminho.
            Vêm-me à mente as palavras que Deus dirigiu a Abraão: «Sai da tua terra, deixa a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar!» (Gn 12, 1). Hoje estas palavras são dirigidas também a vós: são palavras de um Pai que vos convida a «sair» a fim de vos lançardes em direção de um futuro desconhecido, mas portador de realizações seguras, ao encontro do qual Ele mesmo vos acompanha. Convido-vos a ouvir a voz de Deus que ressoa nos vossos corações através do sopro do Espírito Santo.
            Quando Deus disse a Abraão «Sai!», o que é que lhe queria dizer? Certamente, não para fugir dos seus, nem do mundo. O seu foi um convite forte, uma provocação, a fim de que deixasse tudo e partisse para uma nova terra. Qual é para nós hoje esta nova terra, a não ser uma sociedade mais justa e fraterna, à qual vós aspirais profundamente e que desejais construir até às periferias do mundo?
            Mas hoje, infelizmente, o «Sai!» adquire inclusive um significado diferente. O da prevaricação, da injustiça e da guerra. Muitos de vós, jovens, estão submetidos à chantagem da violência e são forçados a fugir da sua terra natal. O seu clamor sobe até Deus, como aquele de Israel, escravo da opressão do Faraó (cf. Êx 2, 23).
            Desejo recordar-vos também as palavras que certo dia Jesus dirigiu aos discípulos, que lhe perguntavam: «Rabi, onde moras?». Ele respondeu: «Vinde e vede!» (cf. Jo 1, 38-39). Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele. Caríssimos jovens, encontrastes este olhar? Ouvistes esta voz? Sentistes este impulso a pôr-vos a caminho? Estou convicto de que, não obstante a confusão e o atordoamento deem a impressão de reinar no mundo, este apelo continua a ressoar no vosso espírito para o abrir à alegria completa. Isto será possível na medida em que, inclusive através do acompanhamento de guias especializados, souberdes empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus na vossa vida. Mesmo quando o vosso caminho estiver marcado pela precariedade e pela queda, Deus rico de misericórdia estende a sua mão para vos erguer.
            Na inauguração da última Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, perguntei-vos várias vezes: «As coisas podem mudar?». E juntos, vós gritastes um «Sim!» retumbante. Aquele brado nasce do vosso jovem coração, que não suporta a injustiça e não pode submeter-se à cultura do descartável, nem ceder à globalização da indiferença. Escutai aquele clamor que provém do vosso íntimo! Mesmo quando sentirdes, como o profeta Jeremias, a inexperiência da vossa jovem idade, Deus encoraja-vos a ir para onde Ele vos envia: «Não deves ter [...] porque Eu estarei contigo para te libertar» (cf. Jr 1, 8).
            Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque «muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução» (Regra de São Bento III, 3).
            Assim, inclusive através do caminho deste Sínodo, eu e os meus irmãos Bispos queremos, ainda mais, «contribuir para a vossa alegria» (2 Cor 1, 24). Confio-vos a Maria de Nazaré, uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um «Eis-me!» pleno e generoso (cf. Lc 1, 38).
            Com afeto paterno,
FRANCISCO
Vaticano, 13 de janeiro de 2017.

Papa Francisco: Jesus tem autoridade porque próximo das pessoas

Jesus tinha autoridade porque servia as pessoas, estava próximo das pessoas e era coerente, ao contrário dos doutores da lei que se sentiam príncipes. Estas três características da autoridade de Jesus foram destacadas pelo Papa na reflexão matutina da terça-feira (10/01), na Casa Santa Marta.
O Pontífice sublinhou que os doutores da lei ensinavam com autoridade “clericalística”, afastados das pessoas, não viviam aquilo que pregavam.
A autoridade de Jesus e aquela dos fariseus são os dois eixos em torno dos quais orbita a homilia do Papa. Um é uma autoridade real, o outro formal. No Evangelho do dia se fala do estupor das pessoas porque Jesus ensinava “como alguém que tem autoridade” e não como os escribas: eram as autoridades do povo, destaca Francisco, mas aquilo que ensinavam não entrava no coração, enquanto em Jesus havia uma autoridade real: não era “um sedutor”, ensinava a Lei “até o último detalhe”, ensinava a Verdade com autoridade.
O Papa desce aos pormenores e reflecte sobre as três características que diferenciam a autoridade de Jesus daquela dos doutores da Lei. Enquanto Jesus “ensinava com humildade”, e diz aos seus discípulos que “o maior seja como aquele que serve: faça-se menor”, os fariseus se sentiam príncipes:
“Jesus servia as pessoas, explicava as coisas para que as pessoas entendessem bem: estava ao serviço das pessoas. Havia um comportamento de servidor, e isto Lhe dava autoridade. Ao invés, os doutores da lei que as pessoas ... sim, escutavam, respeitavam mas não reconheciam que tivessem autoridade sobre eles, estes tinham uma psicologia de príncipes: ‘Somos os mestres, os príncipes, e nós ensinamos vocês. Não serviço: nós mandamos, vocês obedecem”. E Jesus nunca se fez passar por um príncipe: era sempre servidor de todos e isto é o que Lhe dava autoridade”.
É o estar próximo das pessoas, na verdade, que confere autoridade. A proximidade é a segunda característica que diferencia a autoridade de Jesus daquela dos fariseus. “Jesus não era alérgico às pessoas: tocava os leprosos, os doentes, não lhe dava repugnância”, explica Francisco, enquanto os fariseus desprezavam “as pobres pessoas, ignorantes”, eles gostavam de passear pelas praças, bem vestidos:
“Eram distantes das pessoas, não eram próximos; Jesus era muito próximo das pessoas, e isso dava autoridade. Os distantes, aqueles doutores, tinham uma psicologia clericalística: ensinavam com uma autoridade clericalística, isto é, o clericalismo. Eu gosto tanto quando leio a proximidade às pessoas que tinha o Beato Paulo VI; no número 48 da “Evangelii Nuntiandi” se vê o coração do pastor próximo: ali está a autoridade daquele Papa, a proximidade”.
Mas há um terceiro ponto que diferencia a autoridade dos escribas daquela de Jesus, e é a coerência, Jesus “vivia o que pregava”: “havia como uma unidade, uma harmonia entre aquilo que pensava, sentia e fazia”.” Enquanto quem se sente príncipe tem “uma atitude clericalística”, isto é hipócrita, diz uma coisa e faz outra:
“Ao invés, essas pessoas não eram coerentes e sua personalidade era dividida a ponto que Jesus aconselhava seus discípulos: “Fazei o que eles dizem, mas não o que fazem”: diziam uma coisa e faziam outra. Incoerência. Eram incoerentes. E o adjectivo que Jesus usa muitas vezes é hipócrita. E dá para entender que quem se sente príncipe, que tem uma atitude clericalística, que é uma hipócrita, não tem autoridade! Dirá verdades, mas sem autoridade. Jesus, ao invés, que é humilde, que está ao serviço, que está próximo, que não despreza as pessoas e que é coerente, tem autoridade. E esta é a autoridade que o povo de Deus sente”.
Concluindo, para explicar plenamente isto, o Papa recorda a parábola do Bom Samaritano. Diante do homem abandonado meio morto na estrada pelos brigantes, passa o sacerdote e vai embora porque tem sangue e pensa que se o tivesse tocado se tornaria impuro; passa o levita, diz o Papa, e “creio pensasse” que se tivesse se envolvido, depois deveria testemunhar no tribunal” e tinha tantas coisas para fazer. E também ele vai embora. No final, vem o samaritano, um pecador que, ao invés, sente piedade. Mas tem outro personagem, o hospedeiro, nota o Papa, que fica impressionado não com o ataque dos brigantes, porque era uma coisa que acontecia naquela estrada, não pelo comportamento do sacerdote e do levita, porque os conhecia, mas pelo comportamento do samaritano. O estupor do hospedeiro diante do samaritano: “Mas ele é louco”, “não é hebreu, é um pecador”, podia pensar. Francisco então liga este episódio com o estupor das pessoas do Evangelho de hoje diante da autoridade de Jesus: “uma autoridade humilde, de serviço”, “uma autoridade próxima das pessoas” e “coerente”.