quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Papa aos bispos dos EUA: vos acompanho e sustento

Papa aos bispos dos EUA: vos acompanho e sustento

No encontro com os bispos americanos, na Catedral de S. Mateus Apóstolo de Washington, o Papa enviou antes de tudo uma saudação à comunidade hebraica, “aos nossos irmãos hebreus” (disse) que hoje celebram a festa do Yom kipur,  para que o Senhor os abençoe com a paz e os faça progredir na vida da santidade.

Em seguida o Papa saudou os bispos dos Estados Unidos, com as suas diversas proveniências que reflectem a diversidade do povo de Deus espalhados por todo o território. Nenhum membro do Corpo de Cristo e da nação americana, disse Francisco, se deve sentir excluído do abraço do Papa:

“Quando uma mão se estende para fazer o bem ou tornar próximo o amor de Cristo, para limpar uma lágrima ou fazer companhia a alguém na solidão, para indicar a estrada a um extraviado ou reanimar um coração já despedaçado, para se inclinar sobre uma pessoa caída ou ensinar um sedento da verdade, para oferecer o perdão ou guiar para um novo começo em Deus... sabei que o Papa vos acompanha e sustenta e, sobre a vossa mão, apoia também ele a sua já velha e enrugada mas, por graça de Deus, ainda capaz de sustentar e encorajar”.

O Papa em seguida dá graças a Deus pelo dinamismo evangélico e o crescimento da Igreja e da contribuição que essa leva à sociedade norte-americana e ao mundo, mencionando sobretudo o empenho da Igreja americana em favor da vida e da família, o empenho em relação aos imigrantes e a sua missão educativa e caritativa. Também exprimiu apreço pela coragem com que os bispos abordaram os momentos sombrios e as feridas dos últimos anos, coragem acompanhada pelo empenho de curar as vítimas dos abusos. E o Papa Francisco fez referência à sua própria experiência na Argentina que lhe permite compreender bem o esforço dos bispos americanos:

“Conheço bem o desafio de semear o Evangelho no coração de homens, originários de mundos diferentes, muitas vezes endurecidos pela estrada dura percorrida antes de se estabelecerem. Não me é estranha a história da fadiga de implantar a Igreja entre planícies, montanhas, cidades e subúrbios dum território frequentemente inóspito, onde as fronteiras sempre são provisórias, as respostas óbvias não duram e a chave de entrada requer a capacidade de saber combinar o esforço épico dos pioneiros exploradores com a prosaica sabedoria e resistência dos sedentários que supervisionam o espaço alcançado”.

 A visita do Papa Francisco coloca-se na tradição das estreitas relações entre os papas e os Estados Unidos, e em particular de três dos seus predecessores. "Eu não vim para vos julgar ou dar lições - diz o Papa - prefiro antes voltar novamente àquele esforço - antigo mas sempre novo – de interrogar-se sobre os caminhos a seguir, os sentimentos a preservar enquanto se trabalha, o espírito com o qual agir". E neste sentido, o Papa sublinhou as dimensões que lhe parecem fundamentais para os Pastores da Igreja nos EUA. Antes de tudo uma identidade procurada no rezar com assiduidade, no pregar e no apascentar. Não uma oração qualquer, adverte Francisco, mas a união familiar com Cristo; não uma pregação de doutrinas complexas, mas o anúncio jubiloso de Cristo, morto e ressuscitado por nós, tendo em seguida exortado aos bispos:

“Velai para que o rebanho encontre sempre no coração do pastor aquela reserva de eternidade que, afanosamente mas em vão, procura nas coisas do mundo. Encontre sempre nos vossos lábios o apreço pela capacidade de fazer e construir, na liberdade e na justiça, a prosperidade de que é pródiga esta terra. Mas não falte a coragem serena de confessar que «é preciso trabalhar, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna».

O Papa Francisco convidou em seguida aos bispos americanos a evitar a auto-referencialidade e olhar sempre para os horizontes de Deus, que ultrapassam quanto nós podemos prever e planificar, a fugir a tentação do narcisismo, sublinhando que é útil, sim, a previsão do líder e a astúcia do administrador, mas antes de tudo é necessária a percepção da batalha entre a luz e as trevas que se combate neste mundo.

Francisco recordou ainda a angústia dos primeiros Apóstolos, fechados entre os seus muros, e invadidos pelo medo porque o pastor tinha sido morto, para encorajar os bispos dizendo que a nós foi dado um espírito de coragem, não de medo e que não nos é lícito deixar-nos paralisar pelo medo, antes pelo contrário deve-se semear muitas vezes num clima hostil, mas sem nos fecharmos no muro dos medos, chorando por um tempo que não volta atrás e preparando respostas duras às resistências que já são ásperas”. E falou da cultura do encontro e importância do diálogo, não por astuciosa estratégia mas por fidelidade a Cristo que não se cansa de passar e repassar entre os homens até à undécima hora para lhes propor o seu convite de amor:

“Por isso, o caminho a seguir é o diálogo entre vós, diálogo nos vossos presbitérios, diálogo com os leigos, diálogo com as famílias, diálogo com a sociedade. Não me cansarei jamais de vos encorajar a dialogar sem medo … “.

E acrescentou que a linguagem dura e belicosa da divisão não fica bem nos lábios do pastor, não tem direito de cidadania no seu coração e, embora de momento pareça garantir uma aparente hegemonia, só o fascínio duradouro da bondade e do amor é que permanece verdadeiramente convincente.

A missão episcopal – frisou ainda Francisco - é cimentar a unidade e a comunhão com todas as Igrejas particulares e com a igreja de Roma "que preside na caridade". O Ano Santo da Misericórdia seja para todos a ocasião privilegiada para reforçar a comunhão e a unidade, e para reconciliar as diferenças. E a este propósito o Papa sublinhou a importância do serviço da Igreja à unidade para a nação americana, cheia de recursos culturais, científicos, políticos, tecnológicos e humanos num mundo oprimido, e em busca de novos equilíbrios de paz, prosperidade e integração.

Outro aspecto sublinhado pelo Papa no seu discurso aos bispos é a responsabilidade da Igreja nos EUA em relação aos desafios do nosso tempo. No fundo de cada um deles está sempre a vida como dom e responsabilidade, e o futuro da liberdade e da dignidade da nossa sociedade depende da forma como soubermos responder a tais desafios:

“A vítima inocente do aborto, as crianças que morrem de fome ou debaixo das bombas, os imigrantes que acabam afogados em busca dum amanhã, as pessoas idosas ou os doentes que olhamos sem interesse, as vítimas do terrorismo, das guerras, da violência e do narcotráfico, o meio ambiente devastado por uma relação predatória do homem com a natureza… em tudo isto está sempre em jogo o dom de Deus, do qual somos administradores nobres mas não patrões. Por conseguinte, não é lícito iludir ou silenciar”.

Não menos importante, continuou o Papa, é o anúncio do Evangelho da família, fazendo referência ao próximo Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, reiterando que Igreja deve responder a este dever, apesar da hostilidade do clima cultural contemporâneo.

E por último, duas recomendações: a primeira, sobre a "paternidade episcopal": para a qual Francisco exortou os bispos a serem próximos da gente, próximos e servidores, sobretudo próximos para com sacerdotes, para que continuem a servir a Cristo com um coração indiviso, sensíveis às fontes espirituais para que não caiam na tentação de se tornarem notários e burocratas, mas sejam expressão da maternidade da Igreja que gera e faz crescer os seus filhos.  Quanto à segunda recomendação, sobre os imigrantes, o Papa frisou empenho da Igreja americana neste campo:

“A Igreja dos Estados Unidos conhece, como poucas, as esperanças dos corações dos peregrinos. Desde sempre aprendestes a sua língua, sustentastes a sua causa, integrastes as suas contribuições, defendestes os seus direitos, favorecestes a sua busca da prosperidade, conservastes acesa a chama da sua fé. Mesmo agora nenhuma instituição americana faz mais pelos imigrantes do que as vossas comunidades cristãs”.

E agora, em presença desta “longa vaga de imigração latina que investe muitas das  dioceses dos EUA, como Bispo de Roma, mas também como pastor vindo do Sul, sinto a necessidade de vos agradecer e encorajar, acolhei-os sem medo pois possuem recursos para partilhar, e oferecei-lhes o calor do amor de Cristo” – concluiu Francisco. (BS)

(from Vatican Radio)

Papa na Casa Branca: proteger os excluídos que batem com força nas portas de casa

Papa na Casa Branca: proteger os excluídos que batem com força nas portas de casa

Washington (RV) – Como primeiro compromisso desta quarta-feira (23) nos Estados Unidos, Papa Francisco, recebido no país como chefe de Estado, chegou à Casa Branca num carro simples e foi recepcionado pelos anfitriões Barack Obama e sua esposa Michelle. Cerca de 20 mil pessoas acompanharam a cerimônia de boas-vindas no parque localizado ao sul da residência oficial do presidente. Entre os presentes, cardeais e bispos estadunidenses.

Depois das honras militares e da execução dos hinos do Vaticano e dos EUA, o presidente Barack Obama começou sua saudação de boas-vindas, enaltecendo o dia lindo que recebia o Papa no país e, em nome da família, agradeceu oficialmente a visita. “O nosso jardim não está sempre assim lotado”, brincou Obama, “mas o espírito e o tamanho do encontro de hoje é um pequeno exemplar dos 70 milhões de católicos dos EUA. Reflete também a sua mensagem de amor e fé”, disse o presidente ao Papa, uma mensagem que chega às pessoas do mundo inteiro.

Assista a um resumo em vídeo em nosso canal VaticanBR

“Hoje temos muitas primeiras ocasiões”, acrescentou o presidente dos Estados Unidos: “o senhor é o primeiro Papa das Américas. Esta é a sua primeira visita aos EUA. E o senhor também é o primeiro Papa a compartilhar a Encíclica pelo twitter”.

Obama, então, sublinhou que todos os estadunidenses sabem do papel que a Igreja católica tem no país. Inclusive o próprio presidente, quando lembrou do tempo em que morava em Chicago e trabalhava com os pobres: “Pude testemunhar isso todos os dias com as irmãs e os sacerdotes que alimentavam as famílias, com a fé de tantos. Da Argentina ao Quênia, a Igreja está presente em diversas atividades”, enalteceu Obama sobre uma Igreja que quer quebrar as correntes da pobreza.

Justiça social

“Precisamos tirar os pobres da pobreza e os marginalizados das ruas. Lutar contra a desigualdade, porque todos somos feitos à imagem de Deus. A mensagem mais poderosa de Deus é a misericórdia”, disse Obama ao enfatizar a compaixão e o amor que todos precisamos ter por quem sofre, citando refugiados, imigrantes, cristãos perseguidos, igrejas destruídas. “Ajudar eles é imperativo pela paz!”.

Em público, então, Barack Obama agradeceu a mediação do Papa entre as negociações entre Cuba e EUA: “agradecemos pelo novo início com o povo cubano e vamos manter a promessa de manter uma melhor relação entre os nossos países”. O presidente também agradeceu pela voz ativa do Papa contra os conflitos armados e os sinais da guerra, pela proteção tanto do planeta e como dos mais vulneráveis devido às mudanças climáticas. “O senhor está nos sacudindo pra gente acordar! O senhor mexe com a nossa consciência”, finalizou Obama em sua saudação de boas-vindas ao Papa.

Obama

Já no seu primeiro discurso nos Estados Unidos, em uma das “primeiras ocasiões” como salientou Obama, Francisco disse se sentir feliz, “como filho de uma família de imigrantes, por ser hóspede nesta nação, que foi construída em grande parte por famílias semelhantes”.

Sobre a visita ao Congresso dos Estados Unidos, o Santo Padre falou que espera encorajar “todos aqueles que são chamados a guiar o futuro político da nação com fidelidade aos seus princípios fundadores”. Já sobre a ida à Filadélfia para o VIII Encontro Mundial das Famílias, o Papa comentou que irá “para celebrar e apoiar as instituições do matrimônio e da família, neste momento crítico da história da nossa civilização”.

Sociedade de paz

Ao se referir aos católicos dos Estados Unidos, Papa Francisco reiterou a construção de uma sociedade tolerante e inclusiva, “na defesa dos direitos dos indivíduos e das comunidades, e rejeitando qualquer forma de discriminação injusta”.

“A liberdade religiosa permanece como uma das conquistas mais valiosas da América. E, como os meus irmãos bispos dos Estados Unidos nos lembraram, todos somos chamados a vigiar, precisamente como bons cidadãos, para preservar e defender essa liberdade de tudo que possa colocá-la em perigo ou comprometê-la.”

Medida contra mudanças climáticas

Ao se dirigir ao presidente Obama, o Santo Padre considerou promissor o fato de ele ter proposto uma iniciativa para a redução da poluição do ar.

“A história nos colocou num momento crucial quanto ao cuidado da nossa ‘casa comum’. Mas ainda estamos em tempo de empreender mudanças que assegurem ‘um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar’ (Enc. Laudato si’, 13). São mudanças que exigem de nós um reconhecimento sério e responsável do tipo de mundo que podemos deixar não só aos nossos filhos, mas também aos milhões de pessoas sujeitas a um sistema que as tem negligenciado. A nossa casa comum foi parte deste grupo de excluídos que grita aos céus e que hoje bate com força às portas das nossas casas, cidades e sociedade.”

Martin Luther King

Papa Francisco citou Martin Luther King ao afirmar “que estivemos em falta quanto a alguns compromissos e, agora, chegou a hora de honrâ-los”. Além do “cuidado consciente e responsável da nossa casa comum”, o Santo Padre pontuou o caminho da reconciliação, da justiça e da liberdade através dos “esforços feitos recentemente para reconciliar relações que haviam sido rompidas e para a abertura de novas vias de cooperação dentro da família humana”.

“Almejo que todos os homens e mulheres de boa vontade desta grande e próspera nação apoiem os esforços da comunidade internacional para proteger os mais vulneráveis no nosso mundo e promover modelos integrais e inclusivos de desenvolvimento, de modo que, em todo o lado, os nossos irmãos e irmãs possam conhecer as bênçãos da paz e da prosperidade que Deus deseja para todos os seus filhos.”

Com o Coro da Arquidiocese de Washington que finalizava a cerimônia de boas-vindas, o Papa Francisco e o presidente Barack Obama se dirigiram para um encontro privado na Sala Oval da Casa Branca. Além da apresentação de familiares e fotos oficiais, houve troca de presentes: o Pontífice deu a Obama um quadro com a insígnia em bronze do VIII Encontro Mundial das Famílias de Filadélfia, com o mesmo desenho da medalha pontifícia preparada para a viagem apostólica. (AC)

(from Vatican Radio)

Francisco: a nossa revolução passa pela ternura

Francisco: a nossa revolução passa pela ternura

Durante a Missa no Santuário da “Virgem da Caridade do Cobre” o Papa concentrou a sua meditação no Evangelho de Lucas que narra o episódio em que Maria, depois da Anunciação, vai visitar e ajudar a prima Isabel. Vai sobretudo para servir, diz o Papa, o que demonstra que o encontro com o Senhor provoca um movimento, nos põe em caminho, nos impele a mover-nos, a sair da nossa casa:

“A presença de Deus na nossa vida nunca nos deixa tranquilos, sempre nos impele a mover-nos. Quando Deus visita, sempre nos tira para fora de casa: visitados para visitar, encontrados para encontrar, amados para amar”

E o Papa apresenta o exemplo de Maria que não está agitada nem adormentada mas, visto que foi visitada, vai visitar, acompanhar a sua prima grávida e em idade avançada. E esta é uma nota característica importante, reitera o Papa, acompanhar as pessoas, ser próximos a todos os que sofrem para defender os direitos dos seus filhos, como nos diz a Palavra da Vida:

“Maria, a primeira discípula, visitada saiu para visitar. E, desde aquele primeiro dia, foi sempre a sua característica singular. Foi a mulher que visitou tantos homens e mulheres, crianças e idosos, jovens. Soube visitar e acompanhar nas dramáticas gestações de muitos dos nossos povos; protegeu a luta de todos os que sofreram para defender os direitos dos seus filhos. E ainda agora, Ela não cessa de nos trazer a Palavra de Vida, seu Filho, Nosso Senhor”.

A nação cubana é marcada pela devoção à Virgem da Caridade – continuou Francisco – e isto foi confirmado pelos bispos cubanos quando pediram ao Papa Bento XV para declarar a Virgem do Cobre Padroeira de Cuba. E este Santuário, reitera o Papa,  conserva a memória do povo santo de Deus que caminha em terra cubana, exprime as raízes e a sua identidade; é um caminho por vezes cheio de dificuldades, mas enriquecido, tornado vivo graças ao esforço das avós, das mães, da gente que torna viva a presença de Deus na vida quotidiana, nas famílias.

E sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afecto, insistiu o Papa Francisco, dizendo que geração após geração, dia após dia, somos convidados a renovar a nossa fé, somos convidados a viver a revolução da ternura, como Maria, Mãe da Caridade:

“Como Maria, queremos ser uma Igreja que serve, que sai de casa, que sai dos seus templos, das suas sacristias, para acompanhar a vida, sustentar a esperança, ser sinal de unidade de um povo nobre e digno. Como Maria, Mãe da Caridade, queremos ser uma Igreja que saia de casa para lançar pontes, abater muros, semear reconciliação. Como Maria, queremos ser uma Igreja que saiba acompanhar todas as situações «grávidas» da nossa gente, comprometidos com a vida, a cultura, a sociedade, não nos escondendo mas caminhando com os nossos irmãos. Todos juntos, servindo, ajudando; todos filhos de Deus, filhos de Maria, filhos desta nobre terra cubana”.

E por fim o apelo do Papa é de procurar ser uma Igreja capaz de acompanhar as pessoas em situações de dificuldade, pessoas empenhadas na vida, na cultura, na sociedade:

“Este é o nosso «cobre» mais precioso, esta é a nossa maior riqueza e o melhor legado que podemos deixar: aprender a sair de casa, como Maria, pelas sendas da visitação. E aprender a rezar com Maria, pois a sua oração é cheia de memória e agradecimento; é o cântico do povo de Deus que caminha na história. É a memória viva de que Deus está no nosso meio; é a memória perene de que Deus olhou para a humildade do seu povo, socorreu o seu servo como prometera aos nossos pais e à sua descendência para sempre”. (BS)

(from Vatican Radio)

Papa: Junípero soube viver aquilo que é a Igreja em saída

Papa: Junípero soube viver aquilo que é a Igreja em saída

Washington (RV) - O Papa Francisco celebrou a missa de canonização do Beato Pe. Junípero Serra, apóstolo da Califórnia, no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington.

“Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!” Um convite que toca fortemente a nossa vida. Alegrai-vos – diz-nos São Paulo, com a força quase duma ordem. Um convite no qual ecoa o desejo de que todos experimentemos uma vida plena, uma vida que tenha sentido, uma vida jubilosa. É como se Paulo tivesse a capacidade de ouvir cada um dos nossos corações e desse voz àquilo que sentimos, àquilo que vivemos. Há algo dentro de nós que nos convida à alegria, não nos contentando com paliativos que procuram simplesmente tranquilizar-nos”, disse Francisco.

“Por outro lado, vivemos as tensões da vida diária”, frisou o pontífice. “Muitas são as situações que parecem pôr em dúvida este convite. A dinâmica, a que muitas vezes estamos sujeitos, parece levar-nos a uma resignação triste que pouco a pouco se vai transformando num hábito com uma consequência letal: anestesiar o coração.”

“Não queremos que a resignação seja o motor da nossa vida; ou será que queremos? Não queremos que a rotina se apodere da nossa vida; ou sim? Por isso podemos questionar-nos: como proceder para que não se anestesie o nosso coração? Como aprofundar a alegria do Evangelho nas várias situações da nossa vida?”, perguntou o Papa.

“O espírito do mundo nos convida ao conformismo, à comodidade. Perante este espírito mundano é necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, a responsabilidade de anunciar a mensagem de Jesus. Porque a fonte da nossa alegria situa-se naquele desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ide ter com todos, a fim de anunciar ungindo e ungir anunciando.”

“A isto, nos convida hoje o Senhor dizendo: A alegria, o cristão experimenta-a na missão: ide ter com os povos de todas as nações. A alegria, o cristão encontra-a num convite: ide e anunciai. A alegria, o cristão renova-a e atualiza-a com uma vocação: ide e ungi. Envia-vos a todas as nações, a todos os povos. E, neste todos de há dois mil anos, estávamos incluídos também nós. Jesus não dá uma lista seletiva com aqueles a quem se deve ir e a quem não ir, com aqueles que são dignos, ou não, de receber a sua mensagem, a sua presença. Pelo contrário, abraçou sempre a vida como esta Lhe aparecia: com cara de tristeza, fome, doença, pecado; com cara de ferimentos, sede, cansaço; com cara de dúvidas e de fazer piedade.”

“Longe de esperar uma vida embelezada, decorada, maquiada, abraçou-a como a encontrava; mesmo que fosse uma vida que muitas vezes se apresentava arruinada, suja, destroçada. A todos – disse Jesus –, ide e anunciai; a toda esta vida, tal como é e não como gostaríamos que fosse: ide e abraçai no meu nome.”

“Ide pelas encruzilhadas dos caminhos, ide... anunciar, sem medo, sem preconceitos, sem superioridade nem purismos; a todos aqueles que perderam a alegria de viver, ide anunciar o abraço misericordioso do Pai. Ide ter com aqueles que vivem com o peso da tristeza, do fracasso, da sensação duma vida destroçada, e anunciai a loucura dum Pai que procura ungi-los com o óleo da esperança, da salvação. Ide anunciar que os erros, as ilusões enganadoras, as incompreensões não têm a última palavra na vida duma pessoa. Ide com o óleo que cura as feridas e restabelece o coração.”

“A missão nunca nasce dum projeto perfeitamente elaborado ou dum manual bem estruturado e programado; a missão nasce sempre duma vida que se sentiu procurada e curada, encontrada e perdoada. A missão nasce de se fazer uma, duas e mais vezes a experiência da unção misericordiosa de Deus”, disse ainda Francisco.

“A Igreja, o povo santo de Deus, sabe percorrer as estradas poeirentas da história, frequentemente permeadas por conflitos, injustiças, violência, para ir encontrar os seus filhos e irmãos. O santo povo fiel de Deus não teme o erro; teme o fechamento, a cristalização em elite, o agarrar-se às próprias seguranças. Sabe que o fechamento, nas suas múltiplas formas, é a causa de tantas resignações. Por isso saiamos, vamos oferecer a todos a vida de Jesus Cristo. O povo de Deus sabe envolver-se, porque é discípulo d'Aquele que Se ajoelhou diante dos seus, para lhes lavar os pés.”

“Hoje encontramo-nos aqui, porque houve muitos que tiveram a coragem de responder a este chamado; muitos que acreditaram que na doação a vida se fortalece, e se enfraquece no comodismo e no isolamento. Somos filhos da ousadia missionária de muitos que preferiram não se fechar nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta. Somos devedores duma Tradição, duma cadeia de testemunhas que tornaram possível que a Boa Nova do Evangelho continue a ser, de geração em geração, Nova e Boa.”

“Hoje, recordamos uma daquelas testemunhas que souberam testemunhar nestas terras a alegria do Evangelho: Padre Junípero Serra. Soube viver aquilo que é «a Igreja em saída», esta Igreja que sabe sair e ir pelas estradas, para partilhar a ternura reconciliadora de Deus. Soube deixar a sua terra, os seus costumes, teve a coragem de abrir sendas, soube ir ao encontro de muitos aprendendo a respeitar os seus costumes e as suas características.”

Francisco disse que que o Apóstolo da Califórnia, “aprendeu a gerar e acompanhar a vida de Deus nos rostos daqueles que encontrava, tornando-os seus irmãos. Junípero procurou defender a dignidade da comunidade nativa, protegendo-a de todos aqueles que abusaram dela; abusos que hoje continuam a encher-nos de pesar, especialmente pela dor que provocam na vida de tantas pessoas”.

“Escolheu um lema que inspirou os seus passos e plasmou a sua vida: «Sempre avante». Soube-o dizer, mas sobretudo viver. Esta foi a maneira que Junípero encontrou para viver a alegria do Evangelho, para que não se anestesiasse o seu coração. Foi sempre avante, porque o Senhor espera; sempre avante, porque o irmão espera; sempre avante por tudo aquilo que ainda tinha para viver; foi sempre avante. Como ele então, possamos também nós hoje dizer: sempre avante”, concluiu Francisco. (MJ)

(from Vatican Radio)

Papa aos jornalistas: "Sou católico"

Papa aos jornalistas: "Sou católico"

Washington (RV) – No voo entre Santiago de Cuba e Washington D.C., na tarde de terça-feira (22/09) o Papa respondeu às perguntas dos jornalistas que o acompanharam. Os temas principais foram políticos e econômicos, e Francisco chegou a brincar se é realmente católico.

“Se for preciso, recito o Credo”, disse ele. A pergunta se referia às denúncias contínuas que Francisco faz diante das injustiças do sistema econômico mundial, que levaram alguns setores da sociedade estadunidense a duvidar da catolicidade do Papa e a considerá-lo comunista.

O Pontífice contou a reação de uma senhora “muito católica”, que disse a um seu amigo cardeal ter a certeza de que Francisco é o antipapa por não usar os sapatos vermelhos. Já sobre ser comunista ou não, disse ele, “estou certo de que não disse nada a mais em relação àquilo que consta na Doutrina Social da Igreja.

O Papa explicou que não espera que a Igreja o siga, porque o que acontece é precisamente o contrário: “Sou eu a seguir a Igreja e quanto a isso penso que não me engano”. “Talvez alguma coisa tenha dado a impressão que sou pouco mais de esquerda, mas é um erro de interpretação”, acrescentou.

Embargo

Francisco antecipou algumas das preocupações que leva aos EUA, mas negou que vá apresentar ao Congresso estadunidense qualquer pedido direto relativamente ao embargo econômico a Cuba.

“Espero que se chegue a um acordo que satisfaça as duas partes. Em relação à posição da Santa Sé sobre os embargos, os Papa anteriores falaram disso, não só deste caso, fala a Doutrina Social da Igreja”, explicou.

“Não vou falar ao Congresso de forma específica deste tema, mas vou abordar de forma geral os acordos como sinal de progresso na convivência.”.

Dissidentes

Em relação à viagem a Cuba, o Papa explicou que não iria receber ninguém em audiência privada, fossem dissidentes ou outros chefes de Estado [a presidente da Argentina participou na Missa em Havana, ndr].

“A Igreja cubana trabalhou para elaborar uma lista de presos aos quais conceder indulto e foi concedido a mais de três mil”, lembrou.

Francisco explicou que houve vários telefonemas a grupos de dissidentes, convidando-os para cumprimentarem o Papa à entrada da catedral de Havana, e disse desconhecer se houve detenções.

Fidel Castro

Já com Fidel Castro falou de um antigo professor jesuíta do antigo presidente cubano e da encíclica ‘Laudato si’, sobre o ambiente.

“Foi um encontro não tão formal, mas espontâneo: estava lá a sua família, estavam também os que me acompanhavam, o meu motorista, mas estávamos algo distantes, eles não nos podiam ouvir”, assinalou, respondendo à pergunta se Fidel havia se arrependido por ter perseguido a Igreja Católica. “O arrependimento é algo muito íntimo, uma coisa de consciência.”

Brasil

O Pontífice citou ainda o Brasil, quando insinuaram que Cuba recebeu a visita de três Papas por estar “doente”. Francisco definiu “normais” as viagens de seus antecessores. Quanto à sua, disse que foi “casual”, admitindo que a sua ideia original era entrar nos EUA pelo México, através da fronteira de Ciudad Juárez , mas não poderia ir ao México sem visitar Guadalupe. Depois, foi anunciado o “degelo” das relações diplomáticas e acabou por escolher Cuba. “Eu por exemplo visitei o Brasil, João Paulo II o fez três ou quatro vezes e (o país) não tinha uma ‘doença’ especial. Estou feliz por ter visitado Cuba.

Comunismo x capitalismo

O Pontífice rejeitou a crítica de ter sido menos duro com o sistema comunista do que com o capitalismo “selvagem”.

“Em Cuba, a viagem foi muito pastoral, com a comunidade católica, com os cristãos e também as pessoas de boa vontade. As minhas intervenções foram homilias”, observou. Francisco disse ter querido deixar um “discurso de esperança, de encorajamento ao diálogo”, uma “linguagem mais pastoral”.

Todavia, reiterou que em seus discursos sempre acenou à Doutrina Social da Igrejas. “Mas as coisas a serem corrigidas eu as disse claramente e não de modo “perfumado”.

(BF)

(from Vatican Radio)

Grande emoção na chegada do Papa a Washington

Grande emoção na chegada do Papa a Washington

Washington (RV) – Acolhido por uma longa salva de palmas e gritos de entusiasmo, o Papa Francisco aterrou nesta terça-feira (22/09) às 15h49 hora local de Washington na base militar estadunidense de Saint Andrew.

Assista a um resumo em vídeo da chegada do Papa aos EUA

Após ser recebido, ainda à bordo, pelo Núncio Apostólico nos EUA, Carlo Maria Viganò, Francisco desceu as escadas do avião sem o solidéu, por causa do forte vento, e tocando o chão do país pela primeira vez, foi acolhido pelo Presidente Barak Obama.

Com a primeira-dama Michelle e as filhas Malia e Sasha, sorridentes e emocionadas, o Presidente cumprimentou longamente o Pontífice, apresentando-lhe também a sogra, Marian Robinson.

Como fato bastante incomum, também o vice-Presidente Joe Biden e família presenciaram a chegada do Papa. Por razões de segurança, é raro que as duas máximas autoridades do país compareçam simultaneamente em um evento público.

Em seguida, o Pontífice cumprimentou o Cardeal-arcebispo de Washington, Donald Wuerl, representantes da Igreja local e recebeu flores de 4 crianças alunas de escolas católicas da arquidiocese.

Francisco entrou em uma saleta para um breve encontro a portas fechadas com o Presidente Obama e deixou a base em um Fiat 500L com placa SCV-1, usada em diferentes veículos para identificar o automóvel utilizado pelo Papa.

Após dormir na Nunciatura da cidade, o Papa inicia quarta-feira (23/09) seus compromissos oficiais. Logo pela manhã, haverá a cerimônia oficial de boas-vindas, na Casa Branca, e a audiência privada com o Presidente Obama, na Sala Oval.

Ao meio-dia, encontra-se com os bispos da Conferência Episcopal dos EUA. À tarde, Francisco preside a missa de canonização de Junípero Serra – frade franciscano missionário  – na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição.

(CM)