domingo, 29 de janeiro de 2017

Papa: fundamentalismo cria desertos culturais e espirituais

Cidade do Vaticano (RV) – O ecumenismo de sangue foi o tema do discurso do Papa Francisco ao receber na manhã de sexta-feira (27/01), no Vaticano, os membros da Comissão mista Internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais.
“Muitos de vocês pertencem a Igrejas que assistem cotidianamente à expansão da violência e a atos terríveis, perpetrados pelo extremismo fundamentalista”, disse o Pontífice, que foi enfático ao criticar as situações que geram “sofrimento trágico”: são contextos de pobreza, injustiça e exclusão social gerados por interesses partidários, com frequência externos, e por conflitos antigos, que produziram condições “de vida miseráveis, desertos culturais e espirituais nos quais é fácil manipular e instigar ao ódio”. Neste cenário, os cristãos são chamados a oferecer juntos a paz que vem do Senhor um mundo ferido e dilacerado.
A exemplo do que escrevia São Paulo, afirmou ainda o Papa, o sofrimento de uma Igreja é o sofrimento de todas as Igrejas. Por isso, “uno-me a vocês na oração, invocando o fim dos conflitos e a proximidade de Deus às populações que sofrem, especialmente as crianças, os doentes e os idosos. De modo especial, me preocupo com os bispos, sacerdotes, consagrados e fiéis vítimas de sequestros cruéis, e todos os que foram feitos reféns ou reduzidos à escravidão.”
Em contextos onde “a violência chama a violência e a violência semeia morte”, para Francisco a resposta dos cristãos deve ser “o puro fermento do Evangelho” que, sem prestar-se às lógicas da força, faz surgir frutos de vida.
Neste esforço, os mártires indicam o caminho, concluiu o Papa: “Assim como na Igreja primitiva o sangue dos mártires foi semente de novos cristãos, que hoje o sangue de tantos mártires seja semente de unidade entre os fiéis”.
A Comissão mista Internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais foi criada em 2003 e acaba de realizar seu 14º encontro. Em estudo, estão os Sacramentos. 

D. Leonardo Steiner: "Cristãos têm muito a oferecer hoje"

 A mensagem do Papa para o 50º Dia Mundial da Paz de 2017 é dedicada à “não-violência: estilo de uma política para a paz”. Francisco almeja paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e reza para que a imagem e a semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa.
Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta ‘dignidade mais profunda’, afirma o Pontífice, e façamos da não-violência ativa o nosso estilo de vida.
Neste momento, o Brasil vive uma realidade política, econômica, social e religiosa bastante conflituosa, onde as relações humanas se têm caracterizado pela fragilidade; a intolerância e o desrespeito muitas vezes superam a dimensão do transcendente e as palavras se tornam espadas com as quais ferir. Como praticar a não-violência, como pede o Papa?
É o que perguntamos a Dom Leonardo Steiner, bispo auxiliar de Brasília e Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

“Ao convocar um Ano para a não-violência, o Papa recorda o que já tem afirmado mais vezes: nós estamos em etapas numa Terceira Guerra, tanta é a violência no mundo. Esta violência se caracteriza pela intolerância: com os imigrantes, intolerância religiosa, sexual, política. Sentimos cada vez mais a dificuldade do respeito um com o outro”.
“Estamos numa situação em que o cristão tem muito a dizer, muito a testemunhar. Numa realidade em que o Evangelho propõe uma nova convivência, que é o Reino de Deus, reino do amor, reino da misericórdia”.
“Temos muito a oferecer no mundo de hoje; temos a oferecer um mundo aonde o outro não é apenas tolerado, o outro é amado em sua diferença. O Papa tem incentivado a acolhermos as pessoas, o outro, com as suas diferenças”.
“A violência está chegando hoje em todas as realidades: violência nas palavras... que agressividade existe hoje nas palavras! A palavra hoje se tornou mortal, se tornou ferida, quase uma espada. É preciso que a palavra de novo se torne proximidade e desperte para a grandeza e o valor da pessoa humana”.
“Talvez também tenhamos perdido a perspectiva da transcendência, talvez estejamos por demais ligados a obrigações e não percebemos que o extraordinário é mais do que obrigação, que a justiça é mais do que o direito e a transcendência é um apelo a este ‘mais’, é um apelo à liberdade, à receptividade do outro. Nós temos que agradecer muito o Santo Padre por ter convocado este ano e creio que nós temos muito trabalho pela frente mas temos muito a oferecer ao mundo de hoje”. 
(CM)

Card. Parolin em Madagáscar pelos 50 anos de relações diplomáticas

O secretário de Estado vaticano, Cardeal Pietro Parolin, encontra-se na África, onde visitará a República de Madagáscar, por ocasião dos 50 anos das relações diplomáticas do país do oceano Índico com a Santa Sé, e a República do Congo, para a assinatura do Acordo Quadro sobre as relações entre a Igreja católica e o Estado do centro-oeste da África. A viagem durará onze dias e está prevista uma breve etapa em Nairóbi, no Quênia.
Na noite de quinta para sexta-feira (26 e 27 de janeiro), o purpurado chegou ao aeroporto de Antananarivo – capital de Madagáscar. Aguardava-o o núncio apostólico, Dom Paolo Gualtieri, o premier Oliver Solonandrasana Mahafali, acompanhado de muitos ministros, todos os bispos da Conferência episcopal malgaxe, e muitos fiéis, que do lado de fora do aeroporto entoavam cantos tradicionais de boas-vindas.
Na manhã de sexta-feira, o Cardeal Parolin foi recebido em audiência pelo Presidente da República, Hery Martial Rajaonarimanampianina, o qual expressou grande reconhecimento pela visita, recordando as boas relações entre a Santa Sé e Madagáscar, as quais foram reforçadas cada vez mais ao longo destes 50 anos.
O mandatário recordou a visita feita ao Papa Francisco em junho de 2014 e expressou sua mais sincera gratidão por tudo que a Igreja católica faz no país, sobretudo com seus centros educacionais, de saúde e caritativos.
Hery Martial reconheceu o papel importante que a Igreja realiza com suas instituições, contribuindo para o desenvolvimento social de todos os cidadãos, os quais não somente devem ser preparados para o futuro, mas educados segundo os valores tradicionais como fiéis, para dar uma estabilidade moral, espiritual e econômica a toda a República malgaxe.
Ao mesmo tempo, assegurou sua atenção pessoal a fim de que as forças da ordem vigilem com mais circunspeção pela incolumidade das instituições cristãs, que nos últimos tempos têm sofrido muitos furtos por obra de desconhecidos.
Igualmente, manifestou sua firme rejeição à violência terrorista perpetrada por extremistas religiosos e fez votos de um contínuo diálogo com os prelados para colaborar nos âmbitos comuns.
Por último, auspiciou que a celebração do cinquentenário das relações diplomáticas sirva para tornar sempre mais estreitos e fortes os laços com a Santa Sé e que se trabalhe a fim de se chegar a estabelecer, mediante um Acordo Quadro, uma mais profunda colaboração.
Por sua vez, o Cardeal Parolin quis transmitir a afetuosa saudação do Papa Francisco, que é muito amado em Madagáscar, sobretudo entre os jovens, e expressou sua profunda gratidão pelo acolhimento, extraordinariamente caloroso, que lhe foi reservado.
Tendo recordado o motivo da visita, manifestou a disponibilidade da Santa Sé a querer continuar essa profícua colaboração para tutelar, mediante as instituições da Igreja católica, os direitos dos mais frágeis e a assistência necessária a todas as pessoas, em particular, aos mais pobres e marginalizados.
O purpurado fez votos de que através da Igreja local malgaxe se possa contribuir para o bem-estar espiritual e social dos cidadãos. Auspiciou que sua visita seja ocasião de um avanço positivo para as boas relações existentes entre Madagáscar e a Santa Sé, para se alcançar um acordo que assegure às instituições católicas da Igreja seu pleno reconhecimento jurídico.
Ainda na sexta-feira, na sede do Primeiro-ministro teve lugar uma cerimônia na qual o Cardeal Parolin  foi condecorado com a alta honorificência de Grande Oficial da Ordem Nacional de Madagáscar. (RL)

Papa aos membros de Vida Consagrada: fidelidade à vocação

O Santo Padre concluiu suas atividades, na manhã deste sábado (28/01), no Vaticano, recebendo na Sala Clementina, cerca de 100 participantes na Plenária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Em seu pronunciamento, o Papa expressou sua satisfação em receber os membros da Congregação que, nestes dias, em sua plenária, refletiram sobre o tema da “fidelidade e dos abandonos”:
“O tema que escolheram é importante. Podemos dizer que, neste momento, a fidelidade é colocada à prova: é o que demonstram as estatísticas que examinaram. Encontramo-nos diante de certa "hemorragia" que enfraquece a vida consagrada e a própria vida da Igreja. Os abandonos na vida consagrada nos preocupam muito. É verdade que alguns a deixam por um gesto de coerência, porque reconhecem, depois de um sério discernimento, que nunca teve vocação; outros, com o passar do tempo, faltam de fidelidade, muitas vezes a apenas alguns anos da sua profissão perpétua”.
Aqui, o Papa perguntou: o que aconteceu? Como vocês destacaram no seu encontro, são muitos os fatores que condicionam a fidelidade nesse tempo de mudança de época em que se torna difícil assumir compromissos sérios e definitivos. Neste sentido, Francisco destacou alguns desses fatores:
“O primeiro fator que não ajuda a manter a fidelidade é o contexto social e cultural em que vivemos. De fato, vivemos imersos na chamada “cultura do fragmento”, do  “provisório”, que pode levar a viver "à la carte" e ser escravo da moda. Esta cultura leva à necessidade de se manter sempre abertas as "portas laterais" para outras possibilidades, alimenta o consumismo e esquece a beleza de uma vida simples e austera, provocando muitas vezes um grande vazio existencial”.
Vivemos em uma sociedade onde as regras econômicas substituem as leis morais, ditam e impõem seus próprios sistemas de referência em detrimento dos valores da vida; uma sociedade onde a ditadura do dinheiro e do lucro defende sua visão de existência. Em tal situação, disse o Pontífice, é preciso primeiro deixar-se evangelizar e, depois, comprometer-se com a evangelização. Assim, apresentou outros fatores ao contexto sócio-cultural:
“Um deles é o mundo da juventude, um mundo complexo, rico e desafiador. Não faltam jovens generosos, solidários e comprometidos em nível religioso e social; jovens que buscam uma vida espiritual, que têm fome de algo diferente do que o mundo oferece. Mas, mesmo entre esses jovens, há muitas vítimas da lógica do mundanismo, como a busca do sucesso a qualquer preço, o dinheiro e o prazer fáceis”.
Essa lógica, advertiu o Papa, atrai muitos jovens, mas nosso compromisso é estar ao lado deles para contagiá-los com a alegria do Evangelho e de pertença a Cristo. Essa cultura deve ser evangelizada. Aqui, indicou um terceiro fator condicionante, que vem da própria vida consagrada, onde, além de uma grande santidade não faltam situações de contra testemunho que tornam difícil a fidelidade:
“Tais situações, entre outras, são: a rotina, o cansaço, o peso de gestão das estruturas, as divisões internas, a sede de poder... Se a vida consagrada quiser manter a sua missão profética e o seu encanto, continuando a ser escola de lealdade para os próximos e os distantes, deverá manter o frescor e a novidade da centralidade de Jesus, a atração pela espiritualidade e da força da missão, mostrar a beleza do seguimento de Cristo e irradiar esperança e alegria”.
Outro aspecto ao qual a vida consagrada deverá prestar especial atenção é a “vida fraterna comunitária”, que deve ser alimentada pela oração comum, a leitura da palavra, a participação ativa nos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, o diálogo fraterno, a comunicação sincera entre os seus membros, a correção fraterna, a misericórdia para com o irmão ou a irmã que peca, a partilha das responsabilidades. A seguir, o Santo Padre recordou a importância da vocação:
“A vocação, como a própria fé, é um tesouro que trazemos em vasos de barro, que nunca deve ser roubado ou perder a sua beleza. A vocação é um dom que recebemos do Senhor, que fixou seu olhar sobre nós e nos amou, chamando-nos a segui-lo mediante a vida consagrada, como também uma responsabilidade para quem a recebeu”.  
Falando de lealdade e de abandono, disse ainda Francisco, “devemos dar muita importância ao acompanhamento. A vida consagrada deve investir na preparação de assistentes qualificados para este ministério. E concluiu dizendo que “muitas vocações se perdem por falta de bons líderes. Todas as pessoas consagradas precisam ser acompanhados em nível humano, espiritual e profissional. Aqui entra o discernimento que exige muita sensibilidade espiritual. (MT)