sábado, 23 de maio de 2026

Papa Leão XIV pede responsabilidade e esperança durante visita à “Terra dos Fogos”

Em encontro com moradores de Acerra, no sul da Itália, Pontífice denunciou a cultura da resignação diante da injustiça ambiental e incentivou uma conversão baseada no cuidado da vida, da comunidade e das futuras gerações.



O Papa Leão XIV visitou neste sábado, 23 de maio, a cidade italiana de Acerra, localizada na região da Campânia, conhecida mundialmente como “Terra dos Fogos” devido aos graves casos de poluição ambiental provocados pela ação de máfias envolvidas no descarte ilegal de resíduos tóxicos. Durante o encontro realizado na Praça Calipari, o Pontífice dirigiu palavras de esperança, responsabilidade e compromisso social à população local, marcada por anos de sofrimento e consequências dramáticas para a saúde pública.

Recebido pelas autoridades civis e pelos fiéis da região, o Papa destacou que sua presença tinha como objetivo “confirmar e encorajar aquele impulso de dignidade e responsabilidade que cada coração honesto sente quando a vida brota e imediatamente é ameaçada pela morte”.

Segundo Leão XIV, a fragilidade da vida exige maior compromisso humano e espiritual. “Quanto mais uma beleza é frágil, mais ela pede cuidado e responsabilidade”, afirmou.

Um apelo contra a resignação diante da injustiça

Ao refletir sobre a realidade vivida pela população da chamada “Terra dos Fogos”, o Pontífice denunciou aquilo que chamou de “terreno fértil da ilegalidade”: a resignação e a transferência de responsabilidades.

“Há sempre uma sutil conveniência na resignação, nos compromissos, no adiar das decisões necessárias e corajosas”, declarou o Papa.

Ele acrescentou que o fatalismo e a constante tendência de culpar os outros contribuem para uma “desertificação das consciências”, favorecendo o crescimento da injustiça e da exploração.

Diante disso, fez um forte chamado à responsabilidade pessoal e coletiva:

“Assumamos, cada um de nós, as nossas próprias responsabilidades, escolhamos a justiça, sirvamos à vida! O bem comum vem antes dos negócios de poucos, dos interesses de grupos, por menores ou maiores que sejam”.

A dor das famílias e o chamado a um novo olhar

Leão XIV recordou o sofrimento das famílias afetadas pela contaminação ambiental e pela perda de tantas vidas inocentes ao longo dos anos. Segundo ele, essa dor exige da sociedade uma mudança profunda de mentalidade.

O Pontífice retomou temas centrais da Encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, e afirmou que este é o momento de cultivar um “olhar contemplativo” diante da criação e da realidade humana.

Citando o documento, lembrou a necessidade de “um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que deem forma a uma resistência diante do avanço do paradigma tecnocrático”.

O Papa alertou ainda para os perigos de um modelo econômico centrado exclusivamente no lucro e indiferente à dignidade humana. Segundo ele, muitos conflitos atuais nascem da busca desenfreada pela apropriação de recursos e pela concentração de riqueza.

“Todos temos algo a doar, mas primeiro devemos aprender a receber”

Entre os momentos mais marcantes do encontro esteve a reflexão do Papa sobre educação, convivência e vida comunitária.

Leão XIV afirmou que a sociedade não deve desistir do compromisso de construir um futuro melhor para as novas gerações. Para isso, destacou a importância da abertura ao aprendizado e da capacidade de acolher o outro.

“Todos nós temos ainda o que aprender. Cada um tem algo a doar, mas primeiro deve aprender a receber”, disse o Pontífice.

Segundo ele, a disposição permanente para aprender é o que constrói verdadeiramente uma comunidade. Para os cristãos, explicou, isso significa “caminhar juntos” como discípulos de Jesus.

Reconhecimento aos que denunciaram os crimes ambientais

Durante seu discurso, o Papa também agradeceu aos moradores, movimentos e associações ambientalistas que, ao longo dos anos, tiveram coragem de denunciar a realidade da região, mesmo diante de dificuldades e resistências.

Chamando-os de “pioneiros”, Leão XIV reconheceu o esforço daqueles que trouxeram à luz o drama vivido pela população e ajudaram a despertar a consciência pública sobre o envenenamento do território.

O Pontífice defendeu ainda a construção de uma economia “menos individualista” e de um sistema “menos consumista”, baseado em relações humanas mais sólidas, no cuidado com o território e na integração das pessoas que chegam para viver na comunidade.

Combater a marginalização, não os marginalizados

Na parte final de sua fala, o Papa destacou a necessidade de construir comunidades mais inclusivas e menos marcadas pela exclusão social.

Segundo ele, a marginalização gera insegurança e violência, e a verdadeira solução não está em combater os marginalizados, mas em enfrentar as causas profundas da exclusão.

“A marginalização sempre produz insegurança: a via íngreme é combater a marginalização, não os marginalizados; é quebrar a corrente inteira, não atingir apenas o último elo”, afirmou.

A visita pastoral de Leão XIV a Acerra reforçou o compromisso da Igreja com a defesa da dignidade humana, da justiça social e do cuidado com a criação. Em uma terra marcada pela dor e pela contaminação ambiental, o Papa deixou uma mensagem clara: ainda é possível reconstruir a esperança quando a sociedade escolhe a vida, a responsabilidade e o bem comum.